Superstições - 2ª parte

Conheça a etimologia das palavras "amuleto", "talismã", "figa" e "feitiço"

amuleta - Chegou-se a pensar que o vocábulo vinha do árabe; hoje, no entanto, é praticamente consenso que veio do latim amuletum, já empregada por Plínio, o Velho, em sua História Natural, publicada em 77 d.C. (embora a etimologia deste vocábulo latino continue indefinida). Em geral, o amuleto é um objeto pequeno, comumente levado no pescoço ou na roupa, ao qual se atribuem virtudes mágicas. Diferentemente do talismã, o amuleto tem uma ação defensiva: protege o seu portador das influências maléficas e das desgraças trazidas pelo mau-olhado. No Brasil, os mais populares são a figa, a pata de coelho e o trevo de quatro folhas.

talismã - Vem de tilasman , plural de tilasm , vocábulo que os árabes foram buscar no grego telesma , "rito religioso; objeto consagrado". Ao contrário do amuleto, que exerce apenas uma função protetora, o talismã tem poderes ativos, geralmente facilitando a realização dos desejos de seu possuidor. Um exemplo famoso da Antiguidade é o anel de Giges: quando usado com a pedra virada para dentro, seu dono ficava completamente invisível. Bem mais recente é o exemplo da lâmpada de Aladim, uma das histórias mais conhecidas das Mil e Uma Noites.

feitiço - Feitiço, derivado do latim facticius ("artificial, não-natural"), é um vocábulo muito antigo em nosso idioma, sendo registrado já no séc. 15. Inicialmente significava "postiço, artificial": chave feitiça era uma chave falsa, e briga feitiça era apenas de faz-de-conta. Logo, no entanto, assumiu o seu significado atual de "malefício de feiticeiro; bruxaria". Com o avanço português pela costa da África, os nativos adotaram o termo, modificando-lhe a pronúncia para /fetixu/; os franceses, que foram conhecer ali o vocábulo, importaram-no com a forma de fétiche, que foi reimportada por nós no séc. 19, com o sentido de "objeto ao qual se atribui um valor sobrenatural" ou "objeto ou parte do corpo em que certos indivíduos vão buscar excitação erótica" (há fetichistas fixados em sapatos, em roupas íntimas, em pés, etc.). Como sintetiza Celso Pedro Luft, no seu Romance das Palavras: "Era português (feitiço), fez-se africano, afrancesou-se (fétiche) e voltou ao português: fetiche. É o que se chama palavra de torna-viagem ".

figa - Segundo Nei Lopes, em seu Novo Dicionário Banto do Brasil, poderia ser derivada do suaíli fingo, "amuleto"; contudo, ele não descarta a hipótese contrária, isto é, de se tratar de vocábulo português que ingressou no idioma africano - o que parece ser mais provável. Embora este seja um dos amuletos preferidos pelos seguidores das religiões afro-brasileiras, já era conhecido na pré-história européia. O vocábulo figa vem do Latim fica e aparece também no francês e no espanhol (higa, respectivamente); trata-se, portanto, de uma contribuição do nosso idioma às línguas daqueles povos africanos com que Portugal manteve contato, antes mesmo de descobrir o Brasil. O que muitos não sabem é que a figa sempre teve um evidente conteúdo fálico, em que o polegar representa o membro masculino entre os lábios da vulva feminina; o poder contra o mau-olhado atribuído a este amuleto deriva exatamente da crença primitiva de que o sexo e a fertilidade são forças do bem.

Veja também: Superstições - parte 1


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